Movimento Armorial

BREVE HISTÓRICO

 
No dia 18 de outubro de 1970, através de um concerto da Orquestra Armorial de Câmera, intitulado "Três séculos de música nordestina: do Barroco ao Armorial", e de uma exposição de gravuras, pinturas e esculturas, lançava-se oficialmente, no Recife, o Movimento Armorial. Concerto e exposição aconteceram na igreja barroca de São Pedro dos Clérigos, no bairro de São José, e foram promovidos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - através do seu Departamento de Extensão Cultural (DEC) - e pelo Conselho Federal de Cultura.

Em 4 de julho de 1971, antes mesmo de o Movimento completar o seu primeiro ano de existência, e antes do lançamento, com enorme sucesso, do Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, o primeiro romance armorial brasileiro, o Jornal do Commercio do Recife publicava uma extensa entrevista com Ariano Suassuna, sob o título "Sucesso armorial no Sul", na qual o escritor demonstrava a repercussão nacional que o Movimento alcançava. Valendo-se de matérias publicadas em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, Suassuna resumia a impressão geral da crítica, logo após a primeira excursão da Orquestra Armorial, que se apresentara em Porto Alegre e no Rio. Suassuna viajou junto com a Orquestra, e mais do que os três concertos apresentados, os encontros com o público foram verdadeiras aulas de cultura brasileira. Com o auxílio de diapositivos, pinturas, gravuras, desenhos e livros de poemas, o escritor apresentava o espetáculo, o Movimento Armorial, suas origens e seus objetivos, suas primeiras realizações e os planos em defesa da cultura brasileira. Dom Marcos Barbosa, presente a uma das apresentações (a realizada na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro), afirmava, no dia seguinte:
 
“Aquilo não foi um concerto, mas uma verdadeira aula, curso de cultura, que ninguém percebia estar sendo ministrado naquele instante [...] ao longo de três horas que voaram [...]. Música, sim, mas [...] pintura, e história, e pré-história, teatro, patriotismo, bairrismo e até Sagrada Escritura tudo disfarçado, escondido suassunamente na modéstia e simpatia que todos nós conhecemos”. (Jornal do Commercio, Recife, 4 de julho de 1971)
    
Por outro lado, referindo-se especificamente à arte armorial, Eurico Nogueira França escreveu, no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro:
 
“O forte caráter das composições apresentadas vem mais uma vez descerrar-nos os filões de brasilidade criadora [...] - como os há, também, por exemplo, na dramaturgia do próprio Suassuna, que fez comentários tão interessantes, com ‘slides’, sobre aspectos musicais e não musicais do programa. É mais do que nunca oportuno ressaltar esses veios preciosos, porque a nossa música de concerto, nas suas expressões de vanguarda, tende para manifestações abstratas e não nacionais, sob o pretexto principal de que o nacionalismo está superado nos centros musicais do exterior [...]. Ariano Suassuna, com a naturalidade saborosa e pitoresca de sua fala, passou então a ser o animador da noite, explicando as raízes do movimento armorial e comentando cada uma das peças. [...] Audição de perfeita originalidade, teve rumoroso e merecido sucesso”. (Idem) 

Podemos dizer que o sucesso da excursão representou o lançamento, em nível nacional, do Movimento Armorial. A partir dela, de fato, o Movimento começou a ser conhecido e divulgado para além das fronteiras do que Suassuna considera o "coração do Nordeste" - Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. A Orquestra contava com músicos e compositores de talento, da categoria de um Jarbas Maciel ou um Clóvis Pereira, seu regente. Mas é preciso dizer que o sucesso desta primeira excursão (bem como o da segunda, no ano seguinte) deveu-se também às apresentações de Ariano Suassuna, homem que sabe, como poucos, prender a atenção de uma platéia, associando erudição à simplicidade e bom-humor. Nas notícias dos jornais da época, é possível perceber que a ênfase dada às apresentações de Suassuna, verdadeiros espetáculos à parte dos concertos, era de igual ou maior dimensão do que a concedida às apresentações da Orquestra propriamente ditas.


BRIEF HISTORY
 
On October 18th, 1970, through a concerto of the Armorial Chamber Orchestra, entitled “Three centuries of Northeastern music: from Baroque to Armorial”, and an exhibition of prints, paintings and sculptures, the Armorial Movement was officially launched, in Recife. Both concerto and exhibition took place in the baroque church of São Pedro dos Clérigos, in the neighborhood of São José, and were sponsored by the Federal University of Pernambuco (UFPE) – through its department of Cultural Extension (DEC) – and by the Federal Council of Culture.

On July 4th, 1971, even before the first year of the Movement, and before the release – with enormous success – of the Romance of the Kingdom’s Stone and the Prince of Come-and-go Blood, the first Brazilian Armorial novel, the newspaper Jornal do Commercio, in Recife, published an extensive interview with Ariano Suassuna, entitled "Sucesso armorial no Sul" (“Armorial Success in the South”), in which the writer demonstrated the national repercussion reached by the Movement. Quoting materials published in newspapers from São Paulo, Rio de Janeiro and Rio Grande do Sul, Suassuna synthesized the general impression of the critics soon after the first tour of the Armorial Orchestra to Porto Alegre and Rio de Janeiro. Suassuna had traveled with the Orchestra and the encounters with the public – far beyond the three concertos – were true lessons on Brazilian culture. With the help of diapositives, drawings and poem books, the writer presented the spectacle, the Armorial Movement, its origins and goals, its first accomplishments and their plans pro Brazilian culture. Don Marcos Barbosa, present in one of the presentations (the one held at Cecília Meireles hall in Rio de Janeiro) stated in the following day:

                “That was not a concerto, but a true lesson, a culture course that nobody noticed it was being given at that moment […] throughout three hours that went very fast […]. Music, yes, but […] painting, and history, and pre-history, theater, patriotism, regionalism and even the Holy Scripture, all veiled, hidden in a Suassuna-way in the modesty and sympathy we all know”. (Jornal do Commercio, Recife, July 4th, 1971)
    
On the other hand, specifically referring to the armorial art, Eurico Nogueira França wrote in Rio de Janeiro’s Correio da Manhã:
 
“The strong character of the compositions shown once more comes to unveil to use the richness of a creative brasility […] – like we have, also, for instance, in dramaturgy Suassuna himself, who made very interesting commentaries, with slides, about the musical and non-musical aspects of the program. More than never it’s worthwhile to mention these precious sources, because our concerto music, in its avant-garde expressions, tends to abstract and non-national manifestations, under the main pretext that nationalism is not valued in foreign musical centers […]. Ariano Suassuna, with the picturesque and flavorful quality of his speech, was the night’s showman, explaining the roots of the armorial movement and commenting each one of the pieces. […] A perfectly original concerto, with a resounding and well-deserved success”. (Idem)
 
We can say that the tour’s success represented the launching of the Armorial Movement in a national level. In fact, after this tour the Movement began to be known and disseminated beyond the borders of what Suassuna considers to be the “heart of the Northeast” - Pernambuco, Paraíba and Rio Grande do Norte.  The Orchestra counted with talented musicians and composers, such as Jarbas Maciel and Clóvis Pereira, its conductor. But we must remember that the success of this first tour (as well as of the second one, a year later) was also due to Ariano Suassuna’s presentations, a man with the rare gift of keeping the attention of an audience, associating erudition to simplicity and good humor. From the newspaper clips of the epoch it is possible to notice that the emphasis given to Suassuna’s presentations, true spectacles in their own, was equal or even greater than the emphasis given to the presentations of the Orchestra itself.

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A MÚSICA ARMORIAL

O trabalho de composição de uma música armorial inicia-se em 1969 (portanto antes mesmo do lançamento oficial do Movimento Armorial), quando Ariano Suassuna cria um primeiro Quinteto Armorial, formado por duas flautas, um violino, uma viola de arco e percussão. Não satisfeito com a adoção, nesse primeiro grupo, apenas de instrumentos refinados, além do uso da bateria como percussão e da ausência da viola sertaneja, Suassuna cria, após travar conhecimento com Antônio José Madureira (Zoca Madureira), um segundo Quinteto, que, usando instrumentos rústicos do povo (pífano, rabeca, berimbau-de-lata), influenciado por novas sonoridades e investindo na pesquisa de temas populares, começou a compor uma música erudita nordestina e brasileira.



ARMORIAL MUSIC
 
The work of composing an armorial music starts in 1969 (therefore before the official launching of the Armorial Movement), when Ariano Suassuna creates the first Armorial Quintet, formed by two flutes, a violin, a viola and percussion. Unsatisfied with this first group’s use of sophisticated instruments only, besides the use of drums as percussion and the absence of the regional countryside viola, Suassuna creates, after meeting Antônio José Madureira (Zoca Madureira), a second Quintet, that, using rustic popular instruments (pífano, rabeca, berimbau), influenced by new sounds and investing on the research of popular themes, started to compose a Brazilian and Northeastern erudite music.

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ALFABETO ARMORIAL
 
Desenvolvido pelos designers Ricardo Gouveia de Melo e Giovana Caldas, o “Alfabeto Armorial” baseia-se no “Alfabeto Sertanejo” que Ariano Suassuna concebeu a partir dos desenhos dos ferros de marcar bois. O Alfabeto Sertanejo foi originalmente apresentado por Suassuna em seu livro-álbum Ferros do Cariri: uma heráldica sertaneja. Em trabalhos posteriores, Suassuna o utilizou para intensificar ainda mais a relação da sua obra literária com o seu universo pictórico, como ocorreu, por exemplo, nas Iluminogravuras. Depois da realização do livro, Ariano chegou a assinar alguns dos seus trabalhos no campo das artes plásticas com o seu ferro, atitude que foi seguida por vários artistas ligados ao Movimento Armorial. O ferro, marca de posse, passa à condição de marca de autoria, num ato de identificação profunda do autor com a sua obra.


ARMORIAL ALPHABET
 
Developed by the designers Ricardo Gouveia de Melo and Giovana Caldas, the “Armorial Alphabet” is based on the “Backlands Alphabet” that Ariano Suassuna conceived from the drawings of the iron casts used to mark bulls. The Backlands Alphabet was originally presented by Suassuna in his album-book Ferros do Cariri: uma heráldica sertaneja (Cariri Irons: a Backlands Heraldic). In later works, Suassuna employed it in order to further intensify the relationship between his literary work with his pictorial universe, as it happened, for instance, in the Iluminugravuras (designed prints of book ornaments). After the book was published, Ariano started to sign some of his visual arts works with his iron, an attitude followed by several artists linked to the Armorial Movement. The iron, a mark of ownership, turns into a mark of authorship, in an act of deep identification between the author and his work.
 

Fotografia: Acervo Ariano Suassuna

Ferros do Cariri