Aclamado como um dos maiores dramaturgos e romancistas de Língua portuguesa, Ariano Suassuna continua quase desconhecido como poeta, muito embora tenha sido através de um poema – “Noturno”, publicado no Jornal do Commercio, do Recife, a 7 de outubro de 1945 – que o autor, aos dezoito anos de idade, iniciou a sua vida literária.
Ao ingressar na Faculdade de Direito do Recife, em 1946, Suassuna liga-se ao grupo de estudantes que irá retomar, naquele mesmo ano, sob a liderança de Hermilo Borba Filho, o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP). Durante a existência do TEP, de 1946 a 1952, a produção poética de Suassuna acompanha, em extensão, sua produção no campo do Teatro. O estudo aprofundado da poesia popular passa a ser uma constante em sua vida, até porque é partindo principalmente dos folhetos do Romanceiro popular nordestino que ele vai encontrar o caminho para criar toda a sua obra teatral. Datam de 1946, 47 e 48 seus primeiros poemas ligados a este Romanceiro, como “A Morte do Touro Mão de Pau”, “Beira-mar”, “Os Guabirabas”, “Encontro”, “A Barca do Céu”, dentre outros.
Nas muitas incursões que empreende pelo campo da Poesia, Suassuna exercita-se com diversas formas poéticas, tanto as da tradição erudita quanto as da popular, a ponto de trabalhar um soneto com a mesma naturalidade com que trabalha um “martelo agalopado”, um “galope à beira-mar” ou um “repente”.¹
A poesia de Suassuna é ainda marcada por umavisão trágica do mundo – ou por aquilo que Miguel de Unamuno tão bem chamou de "sentimento trágico da vida". Quando nos referimos ao trágico, aqui, não estamos pensando, apenas, no Trágico enquanto categoria da Beleza ligada às ações humanas, que aparece em alguns poemas de Suassuna mais ligados ao épico, poemas com um conteúdo narrativo, a exemplo de “Os Guabirabas”ou “A morte do touro Mão de Pau”. Pensamos também, e principalmente, na palavra trágico no seu sentido mais geral, significando a visão trágica do homem e do mundo: a "contradição irreconciliável", que para Goethe caracterizaria o trágico aplicado ao homem e ao seu estar-no-mundo.
A evidência da morte, juntamente com a ânsia nunca aplacada pelo absoluto, despertam no homem uma consciência trágica. O trágico, portanto, nesse sentido mais geral, encontra-se tanto na visão do homem como um ser-para-a-morte, de Heidegger, quanto na angústia suicida de Camus por não encontrar saída para o absurdo da existência. Na consciência que o homem possui de sua finitude e de suas imperfeições, e na contradição entre esta limitação humana e o desejo de conhecer o infinito. Consciência sempre presente na poesia de Suassuna, que afirma, na ode A Laurenio:
Somos seres terríveis, majestosos,
mas ainda incompletos,
soltos no seio áspero da terra
em que abrimos primeiro os parcos olhos.
Em outra ode, dedicada ao escritor José Paulo Cavalcanti, que se confessara insatisfeito com duas obras que escrevera, Suassuna procura consolar o amigo lembrando-lhe das limitações às quais todos nós estamos sujeitos:
Cavalcanti, hás de sempre, ante o que faças,
malgrado o nobre esforço despendido,
amargar a derrota.
....................................................................
É mesmo inevitável:
somos menos que o mundo e o indizível
foge ao canto dos homens e a seu sopro.
Em última análise, o sentimento trágico da vida resulta disto: consciência da própria condição humana, a desvelar o abismo que separa os homens dos deuses. Inspirado em Píndaro, afirma Suassuna, na mesma ode a Cavalcanti:
Assim, não desesperes
ao ver que a nossos ímpetos de deuses
respondem, como feitas, tão-somente
essas obras de homem.
.................................................................
e a obra que cumprimos
será um cume - erguido contra nada -
mensageira daquilo que entrevimos
e que, como um apelo
que os deuses nos fizessem cada dia,
mora acima de nós, sagrado e oculto.
1 - Formas poéticas do Romanceiro popular nordestino. Tanto o “martelo agalopado” quanto o “galope à beira-mar” pertencem à família das décimas, ou seja, são formados por estrofes de dez versos, sendo que o verso do martelo possui dez sílabas, enquanto o do galope, onze. O esquema rítmico é o mesmo: ABBAACCDDC. Já o “repente” (também chamado de “sextilha”) é composto por seis versos de sete sílabas, rimados em ABCBDB.
Poetry
Acclaimed as one of the greatest playwrights and novelists of the Portuguese language, Ariano Suassuna stills almost unknown as a poet, although it was with a poem – “Nocturnal”, published in the newspaper Jornal do Commercio, of Recife, on October 7th 1945 – that the author, 18-years old then, began his literary life.
After enrolling at the Law School of Recife, in 1946, Suassuna joins the group of students that will carry on, in that same year, under the leadership of Hermilo Borba Filho, the Teatro do Estudante de Pernambuco (Student Theater of Pernambuco) (TEP). During TEP’s existence, from 1946 to 1952, Suassuna’s poetical production is as large as his theater production. A deep study of popular poetry is constant is his life, also because that departing mainly from fliers of the tradition of popular Northeastern poems (Romanceiro Popular Nordestino), Ariano will find the path to create his whole work for theater. His first poems connected to this “Romanceiro” are dated 1946, 47 and 48, and some of them are: “A Morte do Touro Mão de Pau” (“The Death of Bull Wood Hand”), “Beira-mar” (“Coastline”), “Os Guabirabas” (“The Guabirabas”), “Encontro” (“Meeting”), “A Barca do Céu” (“The Sky Ship”).
In his many poetical experiences, Suassuna exercises several poetical forms, both from erudite and popular traditions, working on a sonnet with the same competence he works on a “martelo agalopado”, a “galope à beira-mar” or a “repente”.¹
Suassuna’s poetry is marked by a tragic view of the world – or by that which Miguel de Unamuo so appropriately called “tragic feeling of life”. When we refer to the tragic, here, we are not thinking only of the Tragic as a category of beauty related to human actions, which appears in some of Suassuna’s poems closer related to the epic, which are poems with narrative content, such as for instance “The Guabirabas” or “The Death of Bull Wood Hand”, We are thinking as well, and especially, of the term tragic in its more general sense, meaning a tragic view of man and the world: “the irreconcilable contradiction”, that for Goethe characterized the tragic applied to man and his being-in-the-world.
The evidence of death, along with a never satiated aspiration for the absolute, awakens a tragic awareness in man. The tragic, therefore, in this more general sense, is found both in Heidegger’s view of man as a being-for-death and in Camus suicidal anguish for not finding a way out of the absurd of existence. In the awareness man has of his finitude and imperfections, and the contradiction between human limitation and the wish to know the infinite. An awareness always present in Suassuna’s poetry, as the ode A Laurenio (To Laurenio) states:
We are terrible, majestic beings
but still incomplete,
let alone in the rough midst of the earth
where we first open our precarious eyes.
In another ode, dedicated to the writer José Paulo Cavalcanti, who declared his unsatisfaction about his own writing, Suassuna tries to console his friend by reminding him of the limitations we all are subjected:
Cavalcanti, you will always, before whatever you do,
in spite of the noblest efforts,
chew a bitter failure.
....................................................................
Such is unavoidable:
we are less than the world and the unspeakable
escapes from man’s song and breath
In conclusion, the tragic feeling of life comes from the awareness of the human condition, unveiling the abyss that separates men from gods. Inspired by Pindarus, Suassuna states, in the same ode to Cavalcanti:
So, do not despair
by seeing our god-like impetus
when done, being only
these man-made works
.................................................................
the work we accomplish
will be a peak – raised against nothing –
a messenger of whatever we envisioned
and that, like an appeal
that the gods would make us each day
lives above us, sacred and hidden.
1 - These are poetical forms of the tradition of popular Northeastern poems (Romanceiro Popular Nordestino). Both the “martelo agalopado” and the “galope à beira-mar” are formed by stanzas with 10 lines, while a line of the “martelo” has ten syllables and a “galope” line has eleven. They both share the same rhythmical scheme: ABBAACCDDC. The “repente” (also called “sextilha”) is formed by six lines of seven syllables, rhymed as ABCBDB.